PONTO ZERO
O que vê, sente, percebe e cria um artista quando passa uma temporada por entre as Aldeias do Xisto, no interior de Portugal, às margens do rio Zêzere, em trilhos em áreas de mineradoras, e por entre florestas de pinheiros e suas queimadas constantes? Essa foi a proposta do Projeto Entre Serras ao brasileiro Rodrigo Braga, acostumado por se expressar através de mimesis com a natureza em suas distintas exuberâncias, seja na imensidão amazônica, na seca do sertão brasileiro ou em tantas outras paisagens de diversos continentes.
Durante o verão de 2019, o artista fez uma residência na região (Conselho do Fundão), onde pode dialogar com as histórias daquele lugar e buscar a sua forma de reconhecimento com o meio envolvente.
Braga nos apresenta as suas descobertas e o seu processo ao sair da sua caverna. Assim como pode ser observado na sua produção dos últimos anos, o artista se utiliza de elementos e materiais distintos e contrastantes, que confrontam-se mas também nos mostram a interdependência de um para existir o outro. A escuridão e a luz. A ignorância e o conhecimento. Saindo da sombra e do senso comum, o artista percorre as profundezas de uma terra queimada e explorada, e encontra a formação mais básica e primária de um lugar: a pedra.
A morte da natureza é vivida e o artista entende-se parte do todo: despe-se e arranca seus cabelos sendo capaz de mimetizar com esse lugar onde está, mas que também é de onde viemos e para onde vamos. Como se compreendesse a necessidade de morrer para renascer, Braga se aprofunda e chega ao centro da terra e nos apresenta uma tentativa de zerar tudo e recomeçar do zero. O homem, o meio e suas interações. O preenchimento desse espaço só é possível depois de esvaziado por completo. Assim, o artista apresenta um renascimento do globo desde o seu cerne, com pedras que são chocadas por um homem também em sua forma mais primitiva.
Ponto Zero nos oferece um caminho de pedras já lapidadas pelas mãos de Rodrigo Braga, a ser descoberto se quisermos nos aventurar a também sairmos de nossas próprias cavernas.
Marcella Marer