DA LINHA DO CÔA A FLUXUS
Em 1992, no meio dos olivais, vinhas e amendoeiras, foi descoberta a maior coleção de gravuras rupestres a céu aberto da Europa durante a construção de uma barragem, perto da confluência dos rios Douro e Côa. A comunidade e a comunicação social mobilizaram-se em defesa deste patrimonio. Os protestos levaram à paragem da construção da barragem e à criação do Parque Arqueológico do Vale do Côa. Os desenhos de cavalos, auroques, veados e íbex, datados do Paleolítico Superior (Gravettiano, Solutreano, Magdaleniano), com características idênticas às de Altamira e Lascaux, corroboram a hipótese de que representam um “estilo pictórico e a primeira escola de arte paleolítica [1]”.
As gravuras falam-nos da invenção da vida quotidiana, dum espaço e dum tempo tão distantes e tão próximos, encapsulados no meio ambiente. As nascentes dos rios Côa e Águeda, situadas respectivamente em Portugal e Espanha, junto à fronteira, estão entre os poucos cursos de água que correm de sul para norte, de ambos os lados da Serra das Mesas, a oeste da cordilheira central ibérica. Estes rios têm sido, desde tempos imemoriais, agentes de ligações invisíveis. A água é utilizada na agricultura, pecuária, geração de energia hidroelétrica, mineração … Nos últimos anos, estes territórios têm sofrido episódios de seca extrema.
Esta viagem, realizada com professores e estudantes, terminou no Museu Vostell em Malpartida — uma antiga instalação de lavagem de lã para rebanhos de ovelhas da Extremadura — que serviu de atelier ao artista Fluxus Wolf Vostell.
Museo Vostell de Malpartida, Cáceres, Março de 2022, Carlos Casteleira
[1] Préhistoire du sentiment artistique – L’invention du style, il y a 20 000 ans, Emmanuel Guy, Les presses du réel, 2011
Da Arte Rupestre, do Vale do Côa e do Museu Vostell
Em março de 2022, a Escola Superior de Arte de Aix en Provence (ESAAIX - França), o departamento de Cinema da Universidade da Beira Interior (UBI - Portugal) e da Extremadura (UEx - Espanha), e os Museus Vostell de Malpartida (Malapartida de Cáceres - Espanha) e do Vale do Côa (Vila Nova de Foz Côa - Portugal), co-organizaram este workshop. Carlos Casteleira, Catherine Melin e François Parra animaram um atelier sobre a perceção da paisagem. Esta viagem, através do canto, dos gestos, das imagens e das caminhadas, deu lugar a uma exposição e a um documentario sobre este trabalho colaborativo.
Inspirada no livro Song Lines de Bruce Chatwin, esta viagem é uma adaptação livre da descrição que o autor faz da forma como os povos aborígenes se orientam no bush (floresta) e no deserto. Cada pessoa nasce associada a um canto. Este ajuda a percorrer um caminho preciso, sem se perder. Imaginamos que os ritmos e variações destes cantos, juntamente com a ornamentação pictórica da arte aborígene, são elementos que permitem descrever, reconhecer, memorizar e conectar paisagens com texturas, cores, habitats, animais e plantas particulares destes territórios, agrupados sob respectivos totens.
Durante a viagem, com estudantes da UBI, ESAAIX e UEx, do Vale do Côa ao Museu Vostell de Malpartida, cada participante interpretou fragmentos das paisagens que atravessamos. Estas interpretações foram registadas através de sons ou desenhos, vozes ou gestos.
A visão e o tato, a voz e o canto, constituiram assim ferramentas de ecolocalização, permitindo a cada indivíduo representar e produzir os espaços que percoremos, trazendo os para a escala do seus próprios corpos. As produções resultantes, apresentadas como uma exploração polifónica, cartográfica e sensorial da viagem, foram exibidas na exposição "Da Linha do Côa a Fluxus", em dezembro de 2022, no Espace 31, em Marselha.