O TERRITÓRIO É A ESCALA
O TERRITÓRIO É A ESCALA questiona a paisagem enquanto resultado de uma complexidade ecológica, tecnológica, histórica, social e política que interpela a relação campo / cidade. A conversão de um pinhal em olival, a criação de uma faixa de proteção contra incêndios, traduzem uma vontade de cuidar da paisagem…
Diferentes escalas mostram realidades diversas. Intervenções de pequena escala, juntas, resultam em transformações maiores. É este o ponto de partida para o seminário que fechou a viagem fotografica que decorreu de Setembro 2021 a Março 2022. Esta foi promovida pela ADXTUR – Agência para o Desenvolvimento Turístico das Aldeias do Xisto – em parceria com o Projeto Entre Serras e a Associação Recreativa e Cultural de Cunqueiros. Tratava-se de questionar a paisagem enquanto resultado de uma complexidade de intervenções, a diferentes tempos, com escalas diversas e distintas. Estas questões interpelam o futuro dos territórios do interior, a relação entre o campo e a cidade, entre o rural e o urbano. Como reconsiderar as economias locais, a gestão do meio rural e a sua integração numa economia global assente nos grandes centros urbanos?
A fotografia constitui um dispositivo ótico capaz de ativar reflexões, forças e dinâmicas. Ela pode produzir conhecimento e novos imaginários.
Esta "missão fotografica", que decorreu em 2021 e 2022 esteva centrada na aldeia de Cunqueiros. Neste contexto, Duarte Belo seguiu em direção as serras da Lousã e do Açor, João Abreu ao Tejo-Ocreza, enquanto Carlos Casteleira subia o rio Zêzere. O retrato destas paisagens em permanente mudança, o resultado destas viagens fotograficas, foram apresentados no seminário que decorreu na aldeia de Cunqueiros em março 2022.
O fluxo constante que existe entre o mundo rural e urbano revelou que a população pode partir para os grandes centros, mas muitos regressam periodicamente, juntando-se aos que resistem em partir.
O objectivo era olhar para o territorio a partir de dentro, através de um envolvimento direto, físico e relacional, numa perspectiva bioregional.
CUIDAR DAS PAISAGENS do ZÊZERE e de CUNQUEIROS
Esta viagem a Cunqueiros começa para mim no Peso. O Peso é a aldeia dos meus pais, no socalco da Serra da Estrela, a beira do Zêzere, na Cova da Beira. Quando tinha 3 anos, fomos viver para França, para outras montanhas na fronteira Suíça e nunca mais voltei (ou estou sempre a voltando ?). A atração das hortas e do ar, o sol, o vento e o cheiro da terra depois da chuva têm muito a ver com o centro do mundo que se tornou este lugar. A casa de xisto, a fonte e o ribeiro onde costumava buscar água, as madrugadas na horta do meu avô, ou as tardes de verão para acompanhar as mulheres a lavar a roupa no rio, transformaram estes lugares numa espécie de jardim de Eden. Fui me afastando, construindo outros espaços e descobrindo outras geografias, mas este centro do mundo nunca deixou de se confirmar. Subir pelo rio acima foi uma descoberta. As aldeias que pontilham as margens do rio, do Peso para Cunqueiros, passando pela Coutada, Barco, Silvares, Ourondo, Barroca, Janeiro de Cima e Dornelas em direção à Ademoço, Caneiros, Cambas, Álvaro e Oleiros foram guiando os meus passos. Há muito tempo que ouvia falar do Pinhal Interior, dos incêndios e das aldeias mas ainda não tinha vivenciado o despovoamento. Foi preciso ver e sentir para entender um pouco das dificuldades economicas e geograficas destas paisagens. Com a fotografia descobri esta realidade. Os detalhes que fui focando falam das mulheres e dos homens que moldaram estas paisagens e cuidaram delas.
Mas o passado, por vezes, tambem distorce o presente. Como nos libertar da nostalgia e do medo do futuro?
Precisamos desconstruir certas imagens e inventar outras, em acordo com os novos contextos ecológicos, tecnológicos e simbólicos. Os habitantes de Cunqueiros e os jovens da associação cultural são a encarnação destas preocupações. Visitar Cunqueiros com eles, com a Céu, a Beatriz, a Julia a dona do café, o Ricardo e o pai, o Nuno, o Gonçalo, o João, o Zê Brejo e com os sócios das adegas e do lagar foi um privilégio. Sem eles, não há aldeia! Sem eles não há caminhos, não há hortas, não há florestas e não haverá paisagens para habitar.
Carlos Casteleira – Cunqueiros 12/02/2022